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sábado, 9 de abril de 2011

A Transculturação do Yoga

A Índia e o mundo vem redescobrindo o Yoga, mais a cada dia. O interesse de pesquisadores sobre as antigas tradições do Yoga tem nos rendido uma nova visão sobre esta vasta cultura. As publicações de Gopinath Kaviraj nos renderam uma maior clareza sobre o sistema de Yoga desenvolvido e praticado pelos adeptos do Nathismo. Hoje há um sem número de pess...oas interessadas pelo tema.
Na década de 60, o Yoga que descobríamos era ainda muito influenciado pelas publicações da Sociedade Teosófica, ou pela visão de mestres contemporâneos.
Provocado o interesse pelo Yoga dos Nathas, muitos professores iniciaram suas pesquisas sobre seus textos fundamentais, contexto sócio histórico, práticas, o que certamente impactou a visão que o mundo, inclusive a própria Índia, tinha sobre o Yoga.
O processo de transculturação é delicado e o interesse pelo resgate destas tradições ou uma aproximação (dentro do possível) é desafiante, todos sabemos disso. É um gratificante e delicioso processo de revisão, que exige humildade para que possamos abrir mão de velhos conceitos e que exige, principalmente, o exercício do respeito por toda sorte de trabalhos com Yoga. 
Prof. Fabio Goulart

Unos ou separados?

Unos ou separados?

As escolas filosóficas de caráter adwaita (sem segundo) na Índia concebem o Universo como fruto do ato da observação e também de uma falha da percepção, já que os sentidos são limitados e não são capazes de perceber, por exemplo, que uma pedra é um aglomerado de energia dinâmica. Para o adwaita tudo é Uno, e o observável só parece existir por haver um observador (Purusha, Brahmam, Shiva).

Fernando pessoa fala sobre percepção e relatividade neste verso:"O Universo não é uma idéia minha. Minha idéia do Universo é que é idéia minha"

As escolas de caráter dwaita (dualista) entendem o homem, o universo e Deus como dissociados. Existe um paraíso onde viveremos e nos relacionaremos com o Ser Supremo.

Na Índia, estas divisões são tão fortes que há um texto da escola dwaita que diz que se alguém apenas ler algo escrito por Shankaracharya, grande expositor do sistema Adwaita, estará fadado ao infortúnio.

Por estas bandas de cá é comum encontrarmos um mesmo artigo conciliando as visões dwaita (Deus é diferente de mim) e adwaita (Eu e tudo o que existe somos Um). Talvez porque graças à nossa formação judaico-cristã que é, de certa forma dualista, dificulte um pouco a digestão de um sistema não-dualista.

Há uma história em que Shri Ramakrishna, um grande mestre da Índia, foi até templo de Kalí, sua deusa amada. Chegando lá, ele colocou-se diante do altar para ofertar uma guirlanda e outros mimos à Kalí, estava aí o sentimento dualista (dwaita). Mas, para a surpresa de todos, ele ofereceu tudo à si mesmo, graças à sua visão não dualista (adwaita)!

A história acima ilustra bem o sentimento de integração gerado pelo sistema adwaita. 

Swami Satyananda diz que Yoga não é a união da alma individual com a alma suprema como ouvimos o tempo todo. Justifica que não pode haver integração de algo que nunca se fragmentou, nunca se separou.

A integração proposta pelo Yoga, portanto, já existe. Você está exatamente onde deve estar, não há evolução, nem involução.

Shivoham, Shivoham!

Prof. Fabio Goulart

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Ajustes e alinhamento em 108 ásanas!

Nossa última aula no CLFY, foi sobre Ajustes e Alinhamentos em 108 ásanas. Trata-se de uma aula que desenvolvi para que os alunos pudessem aprender a estudar o corpo em cada um dos ásanas, aprendendo a melhor ação para cada parte do corpo em cada um dos ásanas.

Usei como ilustração uma aula da qual participei em Rishikesh, e que o professor, juntamente com seus auxiliares começou a levar os pés dos praticantes para trás da cabeça. Como eu sabia que não fazia este ásana, comecei a rir (de nervoso!). Mas a incrível descoberta foi que há uma maneira de liberar as articulações através de movimentos e ações que permitem a execução do ásana. Pude, pela primeira vez, executar este ásana e fiquei feliz por isso, porque meu cérebro, meu corpo e minha inteligência foram despertas para isso naquele momento.

Claro que é necessário algum alongamento para chegarmos lá, no caso do Shirapadásana. Mas os ajustes fazem realmente grande diferença.

Após ter contado esta história, fiz a proposta de tentarmos o ásana e ele nasceu!
 Cintia Brandão em seu primeiro Shiradapásana

Puja



Devi Stuti

sarva mangala maangalye shive sarvaartha saadhike |
sharanye traiyambake gouri naaraayani namostute ||

O Puja é um rito que nos coloca diante daquilo que existe de mais venerável.

Elementos como água, incenso, luz de uma lamparina, flores, alimentos e cânticos são ofertados no Puja em um momento de união, conexão entre o ser aparentemente individual e o Ser Supremo, que são um. Ou seja, o Puja permite o estado de Yoga, de integração. É um momento quando estamos diante do Sagrado, presente em tudo o que existe. Um momento contemplativo onde o amor é amplamente explorado.

A prática do Puja faz parte de algo mais abrangente relacionado ao Tantra. Puja é reverência, saber doar, entregar. O Tantra nos aprensenta o processo conhecido como Upasana (lit. Sentar-se diante de algo ou alguém). É o momento quando o sadhaka senta-se diante daquilo que irá representar a Plena Consciência que engendra todo o Universo.

Em minha adolescência passei alguns anos me dedicando ao Puja,  seguindo todos os passos considerados importantes para este processo:

  • Banho antes iniciar
  • Vestes simples: Dhoti
  • Instalação de símbolos e nomes sagrados em diferentes regiões do corpo: anga nyasa e Tilak
  • Archan mudras (gestos feitos com as mãos para "purificar" os elementos do puja)
  • Purificação dos pés, mãos, boca e cabeça com água e mantras.
  • Oferta de flores,essência,  lamparina, abano (chamara), incenso, água do Ganges, etc.
  • Abhishek (banho das murtis, representações em ferro das divindades)
  • Oferta de bhoga, alimentos.


Para mim foi uma grande oportunidade, algo que se misturou à minha vida, à minha maneira de sentir e até hoje me identifico com a prática e o faço em minha casa, de acordo com princípios e conceitos do Tantra que é a filosofia com a qual me casei. Sempre abro a prática honrando o Guru e iniciando pela Ishta Devi, que é a divindade com a qual mais me identifico e que é a murti principal de meu altar. Em seguida presto o puja às demais divindades e nestes momentos, uma sensação única surge em meu interior.

Ainda em minha adolescência, aprendi uma forma de puja chamada manasa puja, o que refere-se à um puja interno. O que mais me fascina nesta forma de puja é que a mente (manas), se torna um altar. Isto significa que em seu coração é entronado o seu Ishta Devata ou Ishta Devi e que você pode ofertar-lhe cada elemento que compõe o puja.

Você pode preparar em sua casa um pequeno altar, com representações de seu mestre ou divindades que lhe inspirem e ofertar-lhes incenso dando sete voltas em sentido horário em torno dela, depositando flores aos seus pés, pequenos copos com água e frutas, que após a oferta podem ser consumidas (prasad). Se você quiser conhecer maiores detalhes sobre a instalação de um altar, basta me contactar por e-mail e será um prazer oferecer-lhe estas informações.

Há um bhajan que sempre canto que diz mama mana mandire, minha mente é um templo. O faço como um pedido, para que a Plena Consciência possa constantemente alargá-la, eliminando seus limites.
Bhagavati Abhishek, realizado em minha casa.

Jay Ma Bhagavati
Hrim

Contato: goulart.fabio@gmail.com